sábado, 6 de maio de 2017

Confissão em tarde de outono





ao vento, por Sergia A.



acato ondas, mansas quando convém 
intempestivas quando açoita o vento

firmo o tronco diante delas enraizando-me
entre grãos de areia banhados de espuma.

absorvo acessos em fases revoltas entre calmarias
anima-me o brilho a refletir cores de nuvens e luar

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Sobre desvios e ilusões



a margem, por Sergia A.


antes de alcançar a altura do espelho, foi na água que se viu refletida. contam que não se conteve. em um salto buscou o abraço na lâmina fria para encontrar sobre a pele as marcas do apressado resgate. não fazia ideia de si. era no outro, ao alcance da mão, que se reconhecia.

cresceu sem água na torneira, ou ducha no banheiro. do olho d'água lhe chegava os goles. da cacimba e das chuvas os banhos. do recolhido nas bicas dos telhados, a alvura dos lençóis. da aurora, o véu sobre o corpo delineando contornos em espelho de cristal. 


sexta-feira, 7 de abril de 2017

Acalanto de Primavera



Aos
anjos de Khan Sheikhoun


alegria suspensa, por Sergia A.




Velo teu sono, ó lua! Clamo por teu nome, ó adorado! quem te trouxe a mim em dias de vida suspensa? abrigo-te dos roncos que inquietam a inocência. amparo-te na certeza das paredes intactas, ou do sangue que não se esvai. 

sopra a brisa e juntos respiramos o medo, disfarçado de alívio. inspiramos o silêncio que sufoca o ar, exalando a noite sobre a manhã de abril. 

domingo, 26 de março de 2017

Roupa de domingo




verde-amarelo mergulhado no azul



                      Veste o domingo
                      o desejo
                      de que, de repente,
                      as coisas brilhem
                      em viscosa harmonia


                      nos púlpitos, o sermão
                      desdizendo mistérios
                      ou no parque os passeios
                      de mãos dadas com a contradição

                      em volta da mesa, o sorriso
                      abafando gritos
                      ou nas ruas bicicletas
                      esmagando no pedalo a solidão

                      veste o domingo
                      um desejo
                      de esquecer o engelhado dos dias
                      e na roupa passada a ferro
                      a redenção