domingo, 18 de fevereiro de 2018

Cartas da Itália: as oliveiras



um fruto, por Sergia A.


Querida L.

Teu nome já não carrega a grafia do sangue pela miscigenação incorporada. Assim como não carrega a grafia dessa, apagada pelas convenções que a história nos impôs. É sobre isso que penso ao ceder ao cansaço e me sentar, por acaso, em frente a ela em uma tarde de outono do outro lado do mundo. Vejo meus ancestrais, me vejo, te vejo, vejo o que virá depois em narrativas do tempo. Tenho à mão uma câmera e um bloco que tornam o rabisco inevitável:

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A vida lamentará por nós dois


Senhor eu não tenho a sua fé,
e nem tenho a sua cor
Tenho sangue avermelhado
O mesmo que escorre da ferida
Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar escravidão e um prato de feijão com arroz


[Claudio Russo, Moacyr Luz, Aníbal, Jurandir 
e Dona Zezé in samba-enredo da Paraíso de Tuiuti, 2018]



carnaval, por Sergia A.



É difícil escrever na quarta-feira de cinzas, convenhamos, mas é preciso cantar, entre restos de confetes e serpentinas, as reminiscências: em frente à TV com uma chuva torrencial lá fora, eu só conseguia gritar genial! genial! genial! desliguei... não queria ver ou ouvir mais nada, aquelas imagens me bastavam. Serenei, consegui dormir, tranquila, com um alívio na angústia que me persegue não sem antes anotar, eufórica, alguns rabiscos.



Dona Zilá na saída de sua casa no Morro do Tuiuti. Foto: Mídia NINJA
Acordo bem. Olho pela janela a cidade que ainda deixa escorrer a chuva. Mudou algo em nossa realidade? Não, aparentemente. No entanto algo me diz que não estou só, que muitos se esforçam e compreendem as raízes da nossa divisão, do nosso eterno futuro distante. E como é gratificante perceber que aquele povo na arquibancada do sambódromo, e nos termômetros enlouquecidos das redes sociais entende que somos um país historicamente dividido. Sim, ultrapassamos a desonestidade manipulatória que tentou levar aos ingênuos a ideia de que nos dividíamos entre coxinhas e mortadelas... E que bom que isso vem pela arte. A criatividade carnavalesca nos mostra que estamos além... muito além na compreensão da perpetuação dos valores de uma sociedade escravocrata que, por puro conservadorismo, não aceita nenhum sinal de mudança.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O apartamento





A imaginação tem todos os poderes: ela faz a beleza, 
a justiça, e a felicidade, que são os maiores poderes do mundo.

Blaise Pascal (1623-1662)
(matemático, físico, inventor, filósofo e teólogo católico francês)





Ao frio ao vento, por Sergia A.



Já passava da meia-noite e eu alí tentando agarrar o sono. Sabe aquele interstício, aquela zona estreita, quando você não está lá e nem cá? Pois era exatamente ali que eu me encontrava quando o telefone tocou. Meu corpo tremeu levemente diante da indecisão. Deveria atender ou não? No peito uma sensação terrível de que o meu equilíbrio estava por um fio. Àquela hora só poderiam ser duas coisas: má notícia ou uma tentativa do já manjado golpe do sequestro. Preparei-me para a segunda possibilidade. Se ouvir choro, não pronunciarei o nome dos meus filhos. Ainda atordoada atendi.

- Amiiiiiiga! que bom que tu ainda não estás dormindo! estou precisando muito falar contigo!

Foi o sinal para que o tremor tomasse conta de todo o corpo e me levasse rapidamente para a primeira opção. Só isso faria uma pessoa fina, criada e educada no Sul, ligar de tão longe àquela hora da noite. Só me restava engolir seco, respirar fundo, acalmar a voz e dizer:

- pois não, querida! cê sabe que pode contar comigo em qualquer circunstância!
- lembra daquele apartamento aqui no Paraná, ali em Guaratuba, que...
- a par ta men to? 

Soletrei cada sílaba sem conseguir disfarçar minha irritação.

- sim, guria. Aquele que me ofereceram e fomos visitar por duas vezes... mas a construtora ainda estava reformando, prometendo mundos e fundos para me conquistar?
- ah! sim, agora lembro.
- então, tava aqui lendo a tal sentença e tive uma ideia. Liguei para um adevogado, meu amigo de escritório daí!

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

2017: entre o prazer e a dor


a máquina que o pôs em movimento é alheia a ele,
às vezes alheia ao tempo em que ele vive. 


[Abril Despedaçado, p.93 - Ismail Kadaré, tradução do albanês de Bernardo Joffily.]



flores secas, por Sergia A.



Vi o filme Abril Despedaçado (2001) antes de ler o livro do albanês Ismail Kadaré. Já tinha certo apreço pelo conteúdo literário encontrado na linguagem de Walter Salles em filmes anteriores como Terra Estrangeira (1995) e Central do Brasil (1998). Possivelmente parte da alegria de sentir algo novo no cinema brasileiro que andava em baixa. Mas não conhecia Kadaré e nem sua escrita instigante. Portanto as imagens, a princípio, me foram fornecidas pela bela fotografia de Walter Carvalho. Imagens que, inexplicavelmente, encontraram eco na minha alma. Tento explicar: não se tratava apenas de ver representado na tela grande o belo extraído da natureza em luta constante contra a morte, que nos acostumamos a ver nos filmes em que o espaço nordestino é tema determinante do enredo, como Terra Seca ou Deus e o Diabo na Terra do Sol. Paisagem que toca e fala muito de perto aos que nasceram ou viveram algum tempo de suas vidas na aridez do sertão. A mudança de foco do drama social para o drama interior que antecede a escolha entre o prazer e a dor era como uma ponta de espinho cravada no pé, a cada passo uma fisgada a me dizer que estava ali. Sem outra opção, devorei o livro.