sábado, 15 de julho de 2017

Sentinela




linha melódica, por Sergia A.





                     há no canto melancólico
                     entre pausas breves
                     o anúncio 
                     da persistência do sol
                     do revolver de conchas e areia
                     sob o bater da onda
                     encrespada pelo vento
                     do movimento incontido do mar
                     ainda que muros e linhas elétricas
                     cerquem o universo do medo
                     apressando o anoitecer
                     ou acinzentando
                     silenciosamente 
                     o olhar


sexta-feira, 30 de junho de 2017

Sobre olhares, gatos e homens



O olhar propicia o enxergar nítido e um olho que realmente enxerga!

(E.T.A. Hoffmann in A janela de esquina do meu primo, 1822
tradução de Maria Aparecida Barbosa)




Meeting, instalação de Wang Shugang em Bamberg, por Sergia A.



Das minhas andanças aprendi que boa parte do encantamento das viagens está no olhar inaugural, no êxtase de ver as coisas pela primeira vez e dali iniciar um processo de conhecimento. Mesmo quando a paisagem já se tornou familiar por vídeos, fotografias, livros, postais e descrições de amigos há sempre uma novidade para o olhar que se desloca. Prestamos atenção em tudo porque o novo nos desperta. Apesar da noite mal dormida e de um dia inteiro entre subidas e descidas de ônibus e degraus, fui seduzida por esse olhar sobre Bamberg.

A luz do dia se apagava entre nuvens acinzentadas sobre a Schönleinzplatz quando uma instalação atraiu meu olhar pela estranheza. Sete homens moldados em fibra de vidro acocorados em círculo. As mãos sobrepostas diante de si em atitude de contemplação profunda, ou preparando-se para um salto. A depender do ponto de vista de quem lhes dirige o olhar. Intrigada, busco e descubro que se tratava da obra Meeting, do artista chinês Wang Shugang. A princípio uma instalação montada em Heiligendammi no ano de 2007 por ocasião da reunião do G-8, transferida anos depois para aquele local para saudar a passagem do Dalai Lama pela cidade. 

domingo, 11 de junho de 2017

O futuro dentro de um livro [ou, um melro na janela]


Um lindo melro abre-me os olhos
de manhã. Canta no verde dos ciprestes
a canção do amor de outrora

Um lindo melro apaga-me os sonhos
pela manhã. Eu sentada no meio
da luz estou mesmo acordada.

(Ulla Hahn in Despertar, tradução de João Barrento)




Janela para os Alpes, por Sergia A.


Em uma viagem ao sul da Alemanha, não há como não ter contato com vida e obra de Ludwig II (1845-1886), o rei louco da Baviera. Claro que sua presença foi sentida em praticamente toda a jornada, mas a ele dediquei um dia de caminhada, escadarias, e algumas horas de leitura rápida. O dia foi intenso e de grande aprendizado sobre a natureza humana e sobre o valor da arte e dos livros, quando esses tocam profundamente a sensibilidade das pessoas. 

O cisne de pedra, por Sergia A.
As visitas guiadas foram a apenas dois castelos. O mínimo, mas o máximo que o tempo podia proporcionar. Ainda assim suficientes para encantar-me não só com a imponência arquitetônica do Schloss Neuschwanstein erguido sobre os Alpes ou a riqueza de detalhes do Schloss Linderhof, como também com a onipresença das lendas medievais que deram origem às óperas de Wagner (de quem Ludwig II foi patrono) e alimentaram largamente a literatura alemã. Desde o nome do primeiro: Novo Cisne de Pedra, em tradução literal - referência à ópera que reconta a lenda do Cavaleiro do Cisne, até a existência de uma gruta no segundo (Gruta de Vênus) - uma caverna cravada nas rochas onde aconteciam performances de óperas e peças teatrais. 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Do caminho



The journey, not the destination, becomes a source of wonder.

(Loreena McKennitt in The book of Secrets)




Primavera, por Sergia A.



Viajar é parte de mim. Talvez, um traço herdado do meu pai que em sua vida curta foi de mascate a dono de caminhão para transporte de cargas. Boa parte do nosso tempo foi consumido acumulando estradas e jornadas. Ele buscando sustento, eu o desperdício em dias de folga do trabalho formal, e ambos ganhando a vida. Digo trabalho formal para diferenciá-lo da arte de escrever a que hoje me dedico. Como se a escrita não fosse trabalhosa. Mas, é que o lado prazer/necessidade se desvia da minha compreensão da palavra trabalho. E o viajar, como parte da mesma arte, ganha nova roupagem. O certo é que, de um modo ou de outro, como no tempo do meu pai as viagens me alimentam, me fortalecem e me afastam do desencanto oferecendo-me novas possibilidades.

Contudo, de uns tempos para cá, já não faço grandes planos. Tenho uma queda pelas coisas que me acontecem por acaso. Foi assim que entrei em uma agência de viagens para montar um roteiro, e recebi uma oferta: a última vaga para um grupo relativamente pequeno que se destinava a cidades medievais ao Sul da Alemanha. Isso ao mesmo tempo em que acontecia a exposição Das brasilianische Weltkulturerbe Serra da Capivara – älteste Siedlungsspuren in Amerika? (exposição fotográfica e exibição de documentário sobre os achados arqueológicos e a região da Serra da Capivara-PI, promovidas pela Embaixada Brasileira e o Instituto de Arqueologia Alemão). Ah, o acaso! Ajustamos. Fechamos.