domingo, 6 de novembro de 2016

A sedutora ideia de deus


O que significam esses heróis nesse palco?

(Friedrich Nietzsche, in A gaia Ciência p.51)



O farol, por Sergia A. in Vila Itaqui-Luís Correia-PI



O tempo não está para flores, disseram-me às portas do avião. Ouvi. Acomodei a bagagem de mão. Sentei-me e fechei os olhos para esquecer do tempo lá fora. Falo das nuvens cinzentas e dos raios que serviam de cortina para a pequena janela. Peguei-me rezando, entre uma turbulência e outra, aos deuses da chuva e do trovão e ao atencioso padre Cícero do Juazeiro. Quando me dei conta, fiquei imaginando o quanto é valiosa a ideia de deus. O quanto é confortador devotar ao sagrado a angústia, tudo o que nos aflige, ou deixar em suas mãos o que ultrapassa a nossa compreensão e controle. As nuvens eram passageiras e foram vencidas rapidamente pela força e velocidade das turbinas. Onde aterrizo o céu é azul. O que não impede que o tempo lá fora, falo agora do que se conta no calendário, continue turvo e ameaçador.

No aconchego dos meus lençóis leio a coluna do escritor J.P. Cuenca para o The Intercept-Brasil, na qual o autor interpreta a cor do tempo como uma entrada na Tyson Zone (em suas palavras: quando o comportamento de alguém se torna tão insano que nada vindo da pessoa possa chocar ou surpreender). Só isso explicaria o fato de que por aqui, no espaço de uma semana, testemunhamos a eleição de um prefeito que “rouba, mas não pede propina”, outro que “vomitou ao sentir cheiro de pobre” e outro pastor que acredita que “gays são fruto de abortos mal-feitos”.  Sem esquecer do Brexit, da vitória do NÃO ao referendo sobre o acordo de paz na Colômbia, ou sobre a possibilidade iminente de eleição de Donald Trump nos USA. 

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Enquanto Seu Lobo não vem



A vida é um caminho de direção oposta

(Marcia Tiburi, in Era meu esse rosto p.190)




outono in Tatton Park, Knutsford - UK, por Sergia A.



Quando ele se aproximou pela primeira vez, eu nem sequer dava conta de mim. E ele veio uma segunda, anos depois ainda que muito cedo, mostrar suas garras infalíveis enquanto passeávamos na praça distraidamente. Ouvi histórias que ensinavam que ele vem, inevitavelmente, a cada um e a seu tempo chegará sem falhas, chamando pelo nome. De surpresa, com aviso prévio, ou, às vezes, com data agendada pela própria presa.

Nos intervalos não aprendi a cozinhar. Por não ver graça em seu dia ao pé do fogão minha mãe se recusava a transmitir às filhas tal legado. Ainda assim uma delas é do tipo que segue os grandes mestres. O prazer da comida fumegante em hora exata, e do vinho em ponto de harmonização. Foi assim que, enquanto ele não vinha, eu lavava louças nas temporadas de frio. A pia que sobra para quem não cozinha. Nada mais reflexivo, contemplativo, relaxante. Uma meditação em alto estilo. A água quente na torneira entoando o mantra entre vapores, e eu ali ruminando os assuntos derramados sobre a mesa. Verificando se o meu entendimento estava correto, se meu ouvido pouco treinado em outras línguas havia, de fato, captado a essência. A esponja soprando bolhas sobre a engenharia dos arcos, a arquitetura bizantina, as valquírias e os atos musicais visíveis de Wagner, a grandiosidade de Shakespeare, planos de viagens e a tradução de Pope para a Ilíada de Homero.

domingo, 25 de setembro de 2016

Tempo e movimento



O tempo não é uma ilusão. 
Ele existe e está realmente avançando.

[Marina Cortês, física da universidade de Edinburgo, 
em entrevista para BBC]



máquina do tempo, por Sergia A.



Precisei recorrer a alguns conceitos da física para me certificar da direção da seta do tempo diante do movimento retrógrado que inverteu nossos passos na trajetória. A epígrafe resume o pensamento dos que acreditam que o universo é feito de uma série de eventos únicos, e por não se repetirem só podem influenciar os eventos seguintes dando ao tempo uma direção: o futuro. Há controvérsia. Há os que negam a ideia da "flecha do tempo". Mas essa não é a minha questão. Falta-me conhecimento para discuti-la. Quero apenas uma tábua de salvação. Algo que me tire da angústia de acordar todos os dias com uma nova sensação de dejà vu.

Mergulho nesta onda incômoda para trazer à tona o real.

Vivi a adolescência durante a última década da ditadura militar brasileira. O ano de 1975 arrastou-me para a capital para fazer o ensino médio (ou segundo grau, para ser fiel à nomenclatura). Não tinha consciência do que acontecia ao meu redor, além dos homens de verde preenchendo esquinas. Uma palavra ou outra que escapava do burburinho dos adultos, sussurrado entre paredes, despertava pequenas faíscas que só mais tarde acenderiam. Uma Lei de 1971 havia imposto o ensino profissionalizante obrigatório, depois de uma Constituição que eliminava a exigência de um gasto mínimo em educação. Algo me diz que, neste ponto, qualquer semelhança com o que ocorre no tempo presente já não parece ser apenas uma sensação de dejà vu. Ganha status de modus operandi.

domingo, 18 de setembro de 2016

Lenda, ficção e realidade em Velho Chico



Mas o que é a história da América toda senão uma crônica do real maravilhoso?

[Alejo Carpentier, in O Reino deste mundo, prólogo p.12]




a travessia, por Sergia A. (1994)


Por muitos anos férias foram portas para estrada e aventuras. Pequenas ou grandes. As crianças muito cedo ganharam a autonomia de fazerem suas próprias malas. Com valiosa contribuição da escola que era chegada a aulas passeio, e foi responsável pela elaboração de um rol mínimo infalível. Colado no guarda-roupa, ao primeiro sinal era só consultar e adequar quantidade de dias, clima, propósitos. Uma vez achamos por bem rodar pelas estradas do nordeste. O compromisso no sertão era visitar Pe. Cícero em Juazeiro-CE e o mosteiro de São Bento em Garanhuns-PE, depois descer a serra, atravessar o Rio São Francisco, uns dias em Aracajú-SE para de lá perseguir o cheiro do mar, margeando toda a costa até o Ceará nos conduzir de volta ao sertão.

Poderia enveredar pelos muitos atalhos que esta aventura descreveu, mas no meio dela teve uma travessia. É a ela que a minha memória caprichosa teima em recorrer para fazer conexões. Lembro do nosso encantamento ao avistarmos a grandiosidade do Rio. A cor das águas, a imensidão que os compêndios de geografia não conseguiam traduzir. Lembro dos pequenos olhares assustados buscando confiança no meu ao descobrir que embarcaríamos, com carro e tudo, em uma balsa. Ao som do ronco contínuo do motor e embalados por um leve balançar enfrentamos, lentamente, os nossos receios até atracar na outra margem bem adiante. Tempo de escutar histórias, causos, ver carrancas e despertar para suas lendas e mitos. Pela primeira vez ouvia falar do Gaiola encantado, o barco fantasma que transporta as almas para o além. Ali era torcer para não ouvir o apito.