sábado, 11 de novembro de 2017

Montagem do dia



assento à janela, por Sergia A.




Tomo posse de cantos, como herdeira do que em sonho foi meu. Planto sementes como garantia. Cedo à insistência do sol. Do ben-te-vi e do café rompendo os dias. Desperto a languidez do transe que cedo me encanta.

Na janela namoro uma brisa acanhada, aspirando ingenuidade. Antes que a boca do poema salte das páginas e, por inteiro, me devore.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Entre o ódio e o medo: a esperança



Nos abrimos para que homens e mulheres escutem
E nos dizemos: Olha, não tenhas medo, sê cândido e anuncia corpo e alma,
Demora-te um pouco e depois segue, sê generoso, prudente, puro, magnético,
E o que tu exalas poderá voltar, como voltam as estações
E poderá ser pleno, como as estações.


[Walt Whitman in Por esses Estados, tradução de Ramsés Ramos]
[Folhas da Relva p.23]



templo à luz, por Sergia A.



Por esses tempos sombrios, frequentemente me envolvo em "tretas". Não aprendi a calar diante do que fere meus olhos ou ouvidos. E depois trago a convicção de que se a internet e as redes sociais deram voz aos imbecis, como disse Umberto Eco, é preciso que vozes sensatas apareçam para equilibrar os ruídos e alimentar a esperança.

Foi assim que ao defender o estado democrático e criticar uma intervenção policial autoritária em uma universidade, ouvi um questionamento sobre "o ódio do pessoal da esquerda a uma farda"  e os "calafrios" diante de armas. Não podendo responder pelos outros mas apenas por mim, respondi que não sou movida pelo ódio. E, não pude evitar que daí surgissem duas ideias, quase que de imediato. A primeira: se até aquele momento eu não tinha me assumido como "alguém de esquerda", e a defesa da democracia contra o arbítrio assim me identificava, pontos para a Esquerda. A segunda: esta seria uma boa oportunidade para deixar de lado a insinuação de covardia contida no questionamento, e examinar o meu medo de armas. Este sim, um sentimento verdadeiro. Neste ponto ele estava certo. Tenho razões e argumentos fortes contra o uso indiscriminado de armas, principalmente quando são usadas com o claro intuito de intimidação como fora o caso que deu início à discussão.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Dois de novembro


por fernandas, yarlas e camillas 



goiabeira sobre fundo cinza, por Sergia A.



oh! Tristeresina
dos mortos que somos vivos
dos vivos que fomos mortos 
das fogueiras que não se apagam 
fagulhas sopradas por ventos que retornam 

oh! Tristeresina
de flores manchadas pela imponência do sol
acinzenta-se obscurecida em sombras 
de muitos rostos emudecidos


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Enquanto não murcharem as flores




Geleiras vão derreter
Estrelas vão se apagar
E eu pensando em ter você
Pelo tempo que durar

[Adriana Calcanhotto e Marisa Monte]



flores à venda, por Sergia A.



A frase Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself. usada por Virginia Woolf para dar início ao Mrs. Dalloway, complementada pela justificativa que finaliza o parágrafo com um pensamento da personagem Clarissa Dalloway : what a morning - fresh as if issued to children on a beach.[1] me conquistou desde a primeira vez que tentei ler o romance. E eu não sei, sinceramente, dizer o porquê. Tocou-me, e para mim basta. Lembro disso agora porque um dia desses uma senhora, ao me ver ver com uma braçada de flores no supermercado (sim, eles vendem flores!) me fez parar para responder-lhe duas questões: quanto custava e quanto tempo durava. Atordoada, fiquei sem respostas porque nenhuma das duas questões tinham sido consideradas quando resolvi levá-las comigo.

Não pensem vocês que sou rica ou do tipo esbanjadora. Tenho apenas o suficiente para viver e controlo bem as minhas contas, mas me permito comprar flores. Não costumo dar festas ou receber amigos com pompas. Ainda assim, compro flores. Talvez pelo prazer que elas me proporcionam ao me dizerem, com delicadeza e cores, que estão vivas, que estão ao meu lado e querem me fazer me sentir bem pelo tempo que viverem.